No período colonial, muitos irlandeses vieram ao nosso país. São exemplos: os jesuítas Tomás Filds, de Limerick, missionário nos sertões e em São Paulo de Piratininga, e Tomás Lynch, de Galway, Provincial de 1750 a 1753; Nicholas George Gwerch, de Waterford, escriturário na Real Extração de Diamantes, preso em Ouro Preto sob a acusação de apoiar a Inconfidência Mineira de 1789. Foi liberado por falta de provas. E o oficial da Marinha Britânica Thomas O’Neill, testemunha da transferência da Família Real de Lisboa para o Brasil e o autor de obra sobre ela.
Mas entre as pessoas irlandesas partícipes da história do Brasil merece particular relevo Narcisa Emilia O"Leary. Fato fundamental foi o seu casamento com José Bonifácio de Andrada e Silva, em 31 de janeiro de 1790, em Lisboa, no oratório da residência de Dom Bartolomeu Manuel Mendes dos Reis, Bispo Resignatário de Mariana (MG). O registro do enlace encontra-se nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa.
Narcisa, durante os 39 anos de união conjugal, compartiu os momentos de glória e de infortúnio do esposo. Entre 1800 e 1819, foi a consorte do pesquisador e professor eminente da Universidade de Coimbra e do bravo oficial da resistência à invasão napoleônica. Nos cinco anos de residência no Brasil, de 1819 a 1823, viu o marido ser primeiro-ministro de Dom Pedro I e constituinte combativo, de maio a novembro de 1823. Dissolvido o parlamento, fez com ele e outros deportados a penosa e prolongada viagem do Rio de Janeiro a Bordéus.
Após cinco anos de doloroso exílio na França, no regresso ao Brasil, ela morreu repentinamente no navio Phenix, em 23 de julho de 1829, e foi sepultada em jazigo da Igreja do Carmo, no Rio de Janeiro. A educadora inglesa Mary Graham (1785-1842), autora de vários livros, após visita ao lar de José Bonifácio, comentou: “Sua mulher é de origem irlandesa, uma O’Leary, senhora da maior amabilidade e gentileza, realmente admiradora do valor e do talento do marido”. O próprio patriarca testemunhou de sua esposa: “Uma amável e virtuosa companheira que tenho...” (O Tamoyo, nº 5, 2 de setembro de 1823, pág. 21). Ambos são pais de Carolina Emília e de Gabriela Frederica, cujos descendentes até os nossos dias desempenham papel de destaque na vida pública e privada de nosso país.
Sobre ela, a historiadora santista Wilma Terezinha Fernandes de Andrade publicou, em 2004, esmerado artigo na revista Leopoldianum. O renomado artista José Luiz de Moura Pereira, que assina suas obras como Zeluiz, autor do Bico de pena do patriarca, colocado no Panteão Nacional em Brasília, pintou também quadro semelhante de Narcisa Emília. A obra foi feita com base em retrato contemporâneo dela, zelosamente conservado por membros da família Andrada.
Entretanto, convém salientar a múltipla presença do Brasil na “Ilha dos Santos e dos Sábios”. Em 1829, Antonio Menezes de V. Drummond, político e diplomata, grande amigo de José Bonifácio, percorreu a Irlanda. Em 1877, Dom Pedro II visitou cidades como Belfast, Cork e Dublin, impressionando os anfitriões pela sua cultura e simplicidade. Joaquim Nabuco, em 1906, esteve ali. O ex-presidente Rodrigues Alves, no ano seguinte.
Entre 1924 e 1952, funcionou o Consulado do Brasil em Dublin. Estiveram à sua frente, sucessivamente, Mario Drolhe Costa, Raul Vachias, Narbal Costa, Pedro Nunes Sá, Mourão Camarinha, João Carvalho de Moraes, Benno O. Strunck, Jatyr de Almeida Rodrigues e Vicente Paulo Gatti. O cônsul Raul Vachias publicou, em 1933, o notável livro A Irlanda.
O primeiro embaixador do Brasil com residência em Dublin foi Carlos Augusto de Proença Rosa (1991), e o primeiro embaixador da Irlanda com residência em Brasília foi Martin Greene (2001).
Nos últimos 20 anos, o Brasil recebeu as gratas visitas das presidentes Mary Robinson e Mary McAleese. É auspicioso o fato de que, em março de 2013, o embaixador Frank Sheridan e a mulher dele, Rita Sheridan, comemorem, em Brasília, a data nacional — dia de São Patrício — com a presença do primeiro-ministro Peter Robinson e do vice-primeiro-ministro Martin Mcguinness, do governo da Irlanda do Norte. O acordo de paz de Belfast, assinado na sexta-feira santa de 10 abril de 1998, com a devotada mediação do senador George Mitchell, continua a dar bons frutos.
Autor: José Carlos Brandi Aleixo.
Fonte: Correio Braziliense.
Mas entre as pessoas irlandesas partícipes da história do Brasil merece particular relevo Narcisa Emilia O"Leary. Fato fundamental foi o seu casamento com José Bonifácio de Andrada e Silva, em 31 de janeiro de 1790, em Lisboa, no oratório da residência de Dom Bartolomeu Manuel Mendes dos Reis, Bispo Resignatário de Mariana (MG). O registro do enlace encontra-se nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa.
Narcisa, durante os 39 anos de união conjugal, compartiu os momentos de glória e de infortúnio do esposo. Entre 1800 e 1819, foi a consorte do pesquisador e professor eminente da Universidade de Coimbra e do bravo oficial da resistência à invasão napoleônica. Nos cinco anos de residência no Brasil, de 1819 a 1823, viu o marido ser primeiro-ministro de Dom Pedro I e constituinte combativo, de maio a novembro de 1823. Dissolvido o parlamento, fez com ele e outros deportados a penosa e prolongada viagem do Rio de Janeiro a Bordéus.
Após cinco anos de doloroso exílio na França, no regresso ao Brasil, ela morreu repentinamente no navio Phenix, em 23 de julho de 1829, e foi sepultada em jazigo da Igreja do Carmo, no Rio de Janeiro. A educadora inglesa Mary Graham (1785-1842), autora de vários livros, após visita ao lar de José Bonifácio, comentou: “Sua mulher é de origem irlandesa, uma O’Leary, senhora da maior amabilidade e gentileza, realmente admiradora do valor e do talento do marido”. O próprio patriarca testemunhou de sua esposa: “Uma amável e virtuosa companheira que tenho...” (O Tamoyo, nº 5, 2 de setembro de 1823, pág. 21). Ambos são pais de Carolina Emília e de Gabriela Frederica, cujos descendentes até os nossos dias desempenham papel de destaque na vida pública e privada de nosso país.
Sobre ela, a historiadora santista Wilma Terezinha Fernandes de Andrade publicou, em 2004, esmerado artigo na revista Leopoldianum. O renomado artista José Luiz de Moura Pereira, que assina suas obras como Zeluiz, autor do Bico de pena do patriarca, colocado no Panteão Nacional em Brasília, pintou também quadro semelhante de Narcisa Emília. A obra foi feita com base em retrato contemporâneo dela, zelosamente conservado por membros da família Andrada.
Entretanto, convém salientar a múltipla presença do Brasil na “Ilha dos Santos e dos Sábios”. Em 1829, Antonio Menezes de V. Drummond, político e diplomata, grande amigo de José Bonifácio, percorreu a Irlanda. Em 1877, Dom Pedro II visitou cidades como Belfast, Cork e Dublin, impressionando os anfitriões pela sua cultura e simplicidade. Joaquim Nabuco, em 1906, esteve ali. O ex-presidente Rodrigues Alves, no ano seguinte.
Entre 1924 e 1952, funcionou o Consulado do Brasil em Dublin. Estiveram à sua frente, sucessivamente, Mario Drolhe Costa, Raul Vachias, Narbal Costa, Pedro Nunes Sá, Mourão Camarinha, João Carvalho de Moraes, Benno O. Strunck, Jatyr de Almeida Rodrigues e Vicente Paulo Gatti. O cônsul Raul Vachias publicou, em 1933, o notável livro A Irlanda.
O primeiro embaixador do Brasil com residência em Dublin foi Carlos Augusto de Proença Rosa (1991), e o primeiro embaixador da Irlanda com residência em Brasília foi Martin Greene (2001).
Nos últimos 20 anos, o Brasil recebeu as gratas visitas das presidentes Mary Robinson e Mary McAleese. É auspicioso o fato de que, em março de 2013, o embaixador Frank Sheridan e a mulher dele, Rita Sheridan, comemorem, em Brasília, a data nacional — dia de São Patrício — com a presença do primeiro-ministro Peter Robinson e do vice-primeiro-ministro Martin Mcguinness, do governo da Irlanda do Norte. O acordo de paz de Belfast, assinado na sexta-feira santa de 10 abril de 1998, com a devotada mediação do senador George Mitchell, continua a dar bons frutos.
Autor: José Carlos Brandi Aleixo.
Fonte: Correio Braziliense.